Recolhemos nossas flores secas da janela antes de fechá-las. Nossos sentimentos embrulhamos em jornais velhos e guardamos dentro de caixas de papelão. O caminhão de mudança levava embora a rotina que tivemos juntos. Objetos que davam identidade a nossa relação. Uma casa montada com afeto e com aquela sensação de eternidade, esvaziada de tudo, de tanto. Você me ofereceu uma carona até o aeroporto, mas preferi ser amparada por um taxista qualquer, um desconhecido que não falasse em corações partidos ou separações doloridas, mas no clima abafado, no prenúncio de chuva, nas nuvens que cobriam o céu por todos os lados. Quis tanto conseguir chorar quando tocou “cry me a river” no rádio, mas eu estava tão ressecada por dentro. Quis tanto que a corrida demorasse para que eu olhasse, talvez pela última vez, a cidade pela janela, amada por todos aqueles anos. Quis que o voo não atrasasse, que as malas extraviassem, que eu pudesse recomeçar minha vida só com a roupa do corpo. Só com meu livro de bolso e meu batom cor de sangue.
Dentro do avião, tive vertigens de pássaro que tenta alçar voo com sua asa partida. Tudo no meu canto era fragilidade e despedida.
Ir embora para poder voltar para mim: foi minha única saída.
Marla de Queiroz
- Para, olha pra mim! pelo menos uma vez, olha pra mim!
Fitou-me com aqueles olhos vazios de alma e vomitou umas poucas e secas palavras:
- Pronto! estou olhando, o que quer de mim?
Por um momento pensei em pedir-lhe um daqueles abraços, aqueles quentes e cheios de afeto do começo.
Quando me via parecia que constelações habitavam seu olhar e eu me sentia tão segura e amada que as vezes pensava estar sonhando. Então eu pedia baixinho para que nada e ninguém me acordasse daquele sonho bonito que eu tinha inventado pra enfeitar minha solidão.
Olhando pra você agora, tento encontrar aquela pessoa de sorriso bonito que tanto amei. Diante de mim apenas um estranho, cinza e frio, como uma daquelas fotografias antigas que guardo na gaveta. O porque da mudança?
Não sei. Vai ver que tens razão, as coisas são assim mesmo, findas.
E a porta foi se fechando enquanto ele permanecia imóvel ainda com os olhos fixos nos meus. E essa foi a última vez que os vi.