sexta-feira, 8 de agosto de 2014

“Escrever é enfiar um dedo na garganta. Depois, claro, você peneira essa gosma, amolda-a, transforma. Pode sair até uma flor. Mas o momento decisivo é o dedo na garganta."

Caio Fernando Abreu






sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Para atravessar agostos...

Assovia o vento dentro de mim. Estou despido. Dono de nada, dono de ninguém, nem mesmo dono de minhas certezas, sou minha cara contra o vento, a contravento, e sou o vento que bate em minha cara.

 Eduardo Galeano



Foi então que sentei na janela, acendi um cigarro e fiquei parada ali durante uns 10 minutos, ou horas, mas o tempo já não importava mais. Imóvel eu contemplava a imensidão do céu e o amontoado de estrelas. O relógio da cabeceira marcava mais de meia noite, um novo dia pensei, acabava de nascer. Lá fora ou aqui dentro? Não se sabe. Cruzei os dedos e desejei apenas que os raios de sol voltassem a tocar meu rosto e que a tua vontade fosse feita. 

Que agosto, mês dos ventos fortes leve embora os cansaços e nos ensine a ter mais paciência. Força e fé, repete comigo? 

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Utopias

“Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.

Nada, nada disso existe."

Caio F.



Desenhei você numa lembrança bonita e te esperei ansiosamente com duas xícaras dispostas sobre a mesa do meu café que nunca dá certo. Da espera esse desassossego impregnava os cantos do apartamento vazio de nós e assoberbado das cinzas da nossa história tão linda e louca. Como num eixo que em mim estabelece a vida, lembro-me perfeitamente o quão bom era contemplar tuas simplicidades e a forma doce que ser humano algum antes de ti fora capaz de perturbar o canto dos meus lábios ressacados pelo frio. Nosso relacionamento sempre foi diferente dos demais, a começar pelos apelidos "Fofinhos" eu era a sua trouxa e ele meu idiota e riamos muito disso. Recordo das vezes que fechava a cara e me chamava de marrenta porque eu nunca falava o que sentia nem dava o braço a torcer e eu sempre fingia me irritar só pra que ele me tivesse em seus braços mais uma vez. Ah meu menino a vida corre rápido demais e você sabe eu nunca fui muito boa com as palavras, mas tenha certeza, se eu tivesse mais uma alma para dar, eu te daria.

PS: A porta continua entreaberta e o coração também. 





"A Magia começa em você. Quando aprender a sentir sua própria Energia, Verá que Ela está presente em cada Ser..."



quarta-feira, 23 de julho de 2014

A companhia solitária da solidão dos próprios órgãos



"(...) pois se de um lado a morte me abraça, do outro  a vida me chama."

Lya Luft






Eu os olho com olhos, tão cheios de ironias e cansaços, na certeza que ser humano algum fora e será capaz de desvendar o que há por trás da opacidade dos olhos meus. Do momento que o ventre sagrado de minha mãe fora rasgado até o aqui, agora em que minhas mãos já tremulas tentam firmar a caneta, declaro que minha glória é não acompanhar ninguém.

Eu sinto o mundo como uma ciranda, uma enorme roda que boa parte anseia fazer parte. Nessas cantigas aprendi desde cedo vendo-os girar que se ama o que é fácil e conveniente e o outro a eles nada serve, aliás, é útil apenas para tapar buracos ou como curativos para as antigas feridas. Para os que dançam na roda as palavras não tem valor, são meros clichês devidamente decorados e espalhados aos quatro cantos. 

De fora eu observo a dança, uma vez que, dessa ciranda eu fui expulsa quando nasci. Fui banida porque meu destino é  ter amor por essas gentes que chegam e partem, gentes que aos poucos as pessoas vão se esquecendo, mas dessas vidas embebidas de afeto, não esqueço, tais repousam no meu coração de chumbo e como um menino cerram os olhos e apenas dormem. 

Da minha jornada, os instantes foram dedicados à busca pelo que sobra depois dos abraços apertados e dos olhares que se cruzam e se perdem. As minhas veias ardem os versos antigos e as canções esquecidas. Talvez minha vida seja mesmo um vendaval que se levantou. Não sei pra onde vou, nem sei se existe um porto em que meu corpo adoecido possa atracar, no entanto em pleno gozo das minhas faculdades mentais declaro que até o leito da minha morte renunciarei as cirandas e clamarei por memórias doces e silêncios para que então enfim eu possa tocar a senhora de olhos doces que sempre me foi roubada, paz.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Forasteiro

E nem sequer
Era primavera.
E disseste que margarida
Era amarelo e branco
E eu disse que branco era paz,
E disseste que amarelo era desespero.
E dissemos quase juntos que margarida era então desespero,
cercado de paz por todos os lados.

Caio Fernando Abreu



Na incompletude dos pedaços desconexos que me constituem, eu habito o planeta vermelho inanimado: marte. Sou fruto do limbo e da estéril atmosfera da qual mais tarde florescerão espinhos. Provenho da simultânea linhagem extinta antes mesmo de vingar,  adaptando-me a paisagem imposta e o doce fel que como pão me alimenta.
Desse planeta caótico, do emaranhado de pensamentos que se misturam e tudo mais que cabe nesse amor, estamos você e eu aqui, girando a 10mil km/h na imensidão do sistema solar desafiando os deuses e seu poder esmagador de alterar e definir destinos. 
Na promessa de preencher os vazios, me ocorre que durante anos o sonho tenha permanecido adormecido imerso na escuridão da minha caixa torácica. Enfim, dessa práxis do improvável, junto com a epifania da desordem, consigo finalmente batizar essa loucura com meu próprio nome e ao contemplar a margarida que floresce no solo árido quando estica os dedos e segura minha mão, descubro finalmente porque nasci. 







quarta-feira, 25 de junho de 2014

Fernando Pessoa, na pele de Álvaro de Campos, diz que todas as cartas de amor são ridículas. Guimarães Rosa revela que a vida quer coragem da gente. E eu concordo, Álvaro. E eu te dou toda razão, Guimarães. Queria eu, naquele dia em que lacrei o envelope, ter sido mais ridículo e ter tido muito mais coragem. Isso evitaria o meu remorso ao confessar nesse momento que a última carta que escrevi foi em dois mil e sete; eu tinha vinte e três anos e ela nunca foi entregue.

Pedro Gabriel


sábado, 14 de junho de 2014

Sóbria


Seguimos através de nossas migalhas de pão, sonhando que as fomes terminem e o dia siga espalhando suas luzes para nos mostrar onde estão as veredas que devem ser evitadas. O pão apodrece, o dia finda, a estrada se torna mais perigosa, ficamos sem direção e a verdade relampeia quase cegando: estar perdido é o nosso caminho certo.

Tiago Fabris Rendelli


Eu sempre tive um jeito enorme de amar para sempre, mas sou desajeitada demais para lidar com o que não tem fim. Essa utopia que tantos tecem aos quatro ventos não se adéqua a mim, nem me pertence. A felicidade sempre me pareceu um tanto escorregadia  a ponto de nunca ter conseguido firma-la nas mãos. Engraçado, minha honestidade costuma causar certo desconforto, muitos até creem de pé junto que não passo de mais uma desiludida que canta sobre a solidão. Tais filosofias já não me tocam, alias quase nada. Nesses dias lentos só tenho presa e sentimentalidade exacerbada costuma ser prejudicial à saúde.


domingo, 8 de junho de 2014

Pra você dar o nome

Arrumando as prateleiras num desses dias casuais foi quando encontrei um velho bilhete perfeitamente dobrado em quatro partes. No primeiro momento tive receio de abri-lo, lembranças como bons fantasmas vez em outra divertem-se remexendo uma porção de sentimentos empoeirados. Entretanto ao desdobrar o papel amarelado pelo tempo e contemplar aquela caligrafia torta tão conhecida, na ânsia de chorar, sorri. Porque não havia dor nem magoa, só essa coisa mansa, sem nome que floresce quando lembro de ti.


Não precisava fazer nada, pensei. Queria apenas tua presença, mas isso sempre foi uma coisa simples e complicada de entender.

"Não adiantará 
Conjugar relógios
Consultar poemas
Escrever oráculos.
Não adiantará
Conjugar manhãs
Consultar marés
Escrever em lápides.
A história
Foi-se:
Breve
Lírica
Linda.
Mas
Agora
É finda."

Marla de Queiroz 

OBS: Observa-se meu encanto por Marla de Queiroz, amo mesmo e ela sabe. rsrs 

quarta-feira, 28 de maio de 2014

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Recolhemos nossas flores secas da janela antes de fechá-las. Nossos sentimentos embrulhamos em jornais velhos e guardamos dentro de caixas de papelão. O caminhão de mudança levava embora a rotina que tivemos juntos. Objetos que davam identidade a nossa relação. Uma casa montada com afeto e com aquela sensação de eternidade, esvaziada de tudo, de tanto. Você me ofereceu uma carona até o aeroporto, mas preferi ser amparada por um taxista qualquer, um desconhecido que não falasse em corações partidos ou separações doloridas, mas no clima abafado, no prenúncio de chuva, nas nuvens que cobriam o céu por todos os lados. Quis tanto conseguir chorar quando tocou “cry me a river” no rádio, mas eu estava tão ressecada por dentro. Quis tanto que a corrida demorasse para que eu olhasse, talvez pela última vez, a cidade pela janela, amada por todos aqueles anos. Quis que o voo não atrasasse, que as malas extraviassem, que eu pudesse recomeçar minha vida só com a roupa do corpo. Só com meu livro de bolso e meu batom cor de sangue.
Dentro do avião, tive vertigens de pássaro que tenta alçar voo com sua asa partida. Tudo no meu canto era fragilidade e despedida.
Ir embora para poder voltar para mim: foi minha única saída.

Marla de Queiroz




- Para, olha pra mim! pelo menos uma vez, olha pra mim!
Fitou-me com aqueles olhos vazios de alma e vomitou umas poucas e secas palavras:
- Pronto! estou olhando, o que quer de mim?
Por um momento pensei em pedir-lhe um daqueles abraços, aqueles quentes e cheios de afeto do começo.
Quando me via parecia que constelações habitavam seu olhar e eu me sentia tão segura e amada que as vezes pensava estar sonhando. Então eu pedia baixinho para que nada e ninguém me acordasse daquele sonho bonito que eu tinha inventado pra enfeitar minha solidão.
Olhando pra você agora, tento encontrar aquela pessoa de sorriso bonito que tanto amei. Diante de mim apenas um estranho, cinza e frio, como uma daquelas fotografias antigas que guardo na gaveta. O porque da mudança?
Não sei. Vai ver que tens razão, as coisas são assim mesmo, findas.

E a porta foi se fechando enquanto ele permanecia imóvel ainda com os olhos fixos nos meus. E essa foi a última vez que os vi.

sábado, 17 de maio de 2014


 ¿Qué tal si deliramos por un ratito?

(o por toda la vida)

 Em prol do lema defendido pela luta antimanicomial: "Trancar não é tratar", estou realmente orgulhosa por fazer parte desse grupo de pessoas dispostas a dar a cara para bater pelo bem maior. Força, fé, mobilização mil e vamos que vamos.




domingo, 27 de abril de 2014

“... E assim tem sido a minha vida, sempre me perdendo atrás do que é bonito.” 

(Lisbela e o Prisioneiro)




terça-feira, 22 de abril de 2014


Na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu.



Quis te contar, que na correria do meu dia no decorrer das estações tudo o que sempre quis e não soube como dizer foi o quanto queria ter você comigo. Sim, eu sempre soube que você era conjunto meu, porque só tu tens o poder de complicar meus passos, desatar meus nós e me desconcertar por inteira.

Quis te contar que tudo que eu sempre quis foi dividir contigo meu cobertor, a minha história e até minhas interrogações. Quis contar que jamais soube chamar outra pessoa de amor e que meu violão se desbota com o passar dos dias, porque não consegui tocar mais nenhuma nota.

Quis te contar que sem você eu sou somente uma caixa de ossos chacoalhando por ai e que desenho teu rosto em pensamento quando o sono não vem.

 Quis te contar que gastei todos os reles centavos que eu tinha no bolso e comprei uma casa pra gente na lua, e que te espero, com a calma, o abraço e o zelo. Te espero pra rodar comigo, numa valsa infinita que só existe num castelo de sonhador, o nosso castelo.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Pra plantar um carinho nesse peito inquieto, as palavras que o dicionário não sabe traduzir.



terça-feira, 15 de abril de 2014





Parecia ser mais um dia banal, a semana começava novamente e com ela uma pilha imensa de trabalhos a serem feitos. O calor havia nos abandonado, dando lugar ao charme do frio que creio que só o RS possui. Até onde a memória alcança, lembro-me gostar de tal clima, sempre fora assim, agora talvez ainda mais, pelo fato de trazer consigo não só o aconchego da lareira e da xícara de café, mas também pela nostalgia das lembranças guardadas com tamanha delicadeza por todos esses anos.
O frio me trás uma mala cheia de risos, músicas cantadas pelos corredores, e uma segunda família que deixei, na promessa de voltar, todavia jamais o fizera, creio por falta de coragem e também por acreditar que se tu tens uma lembrança boa e a vida te obriga a partir é melhor guardar o que se têm do que permitir que o amargor da ausência acabe por destruir os laços. Realmente foi o melhor, a gente não se vê muito é verdade, mas quando nos encontramos é quase tangível o carinho que o nosso abraço emana, por isso vos afirmo, aquilo que é de verdade, meus amigos, nunca se perde. 
Parecia mais um dia banal, mas não era. Entre tantos sonhos extraviados e relógios que rodam pra trás, depois de tanto tempo eu sentia que finalmente havia me encontrado e sabe eu não sei se esse florescer interno é o que chamam de encontrar a tal felicidade, mas tá pra nascer alguém que me tire a alegria de procurar.


sábado, 5 de abril de 2014

Então eu tive uma das experiências mais fortes da minha vida. Não havia nada além de um espelho e palavras que eu dizia para os Outros, mas tive que me dizer olhando nos olhos: os mais tristes que já tive. Minha voz tava embargada, mas meu coração tinha certeza do que dizia. Minha fisionomia mudou, e eu consegui gargalhar novamente por ser exatamente como quem estou me tornando.

Eu estava me fazendo muita falta.

Marla de Queiroz


segunda-feira, 31 de março de 2014

Pássaros não nasceram para viver em gaiolas




Com os braços estendidos ela contemplava o vazio enquanto seus pés tateavam o parapeito. Os vizinhos evitavam tal lugar, talvez pelo fato de ser o último andar e pela possível vertigem que causava ao se  contemplar o abismo. Mas ela não tinha medo, um dia talvez como os outros tivera, não se sabe. Lá em cima o vento soprava forte e de longe se podia ouvir o som ensurdecedor das buzinas e dos telefones tocando. Nada era capaz de rouba-la daquele mundo, a menina parecia fazer parte de algo presente ali, todavia quando tentava explicar ninguém nunca a escutou.

Durante muito tempo observei-a pela vidraça tentando entender o que a fazia se equilibrar naquela linha tão pequena e porque não dizer frágil no alto do edificio. Certa vez alguém disse que ela nascera com a cabeça na lua, que vivia falando sobre fadas e anjos e de como o mundo podia ser mágico. Costumavam a chamar de louca porque pensava assim, porém eu nunca dei atenção a nada dito por pessoas que a mim pareciam ser tão iguais. 

Semanas passaram e não mais a vi. Tentei encontra-la em todos os cantos, até mesmo nos rostos comuns  que eu cruzava pelas ruas, sem sucesso. Permaneci imóvel naquela janela e por vezes acordei com a cara amassada sobre o vidro e nenhum sinal dela. Depois de um tempo acabei por me conformar, por não ver mais nem sua família, imaginei que pudessem ter mudado. No entanto, foi passando por uma banca de jornais que na primeira pagina lá ela estava, "Menina desaparece sem deixar rastros: pais estão inconsoláveis" , de imediato sorri, ninguém soube mas no final daquela nota compreendi, ela não sumira, apenas se atirou no abismo bateu as asas e partiu.

Nota: (...) Nenhum corpo ou vestígio de fuga foi encontrado. Os familiares derao falta apenas de um vestido branco de seda que havia sido dado pela avó e também havia um bilhete de sua própria caligrafia com as seguintes palavras: "* ...eu serei a tempestade, o dia de sol, o céu azul, a nuvem negra, a ressaca do mar, o voo de um pássaro ou de uma borboleta... mesmo com a asa quebrada."


* Frase: Marla de Quieroz

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Segredo

Há uma palavra que pertence a um reino que me deixa muda de horror. Não espantes o nosso mundo, não empurres com a palavra incauta o nosso barco para sempre ao mar. Temo que depois da palavra tocada fiquemos puros demais. Que faríamos de nossa vida pura? Deixa o céu à esperança apenas, com os dedos trêmulos cerro os teus lábios, não a digas. Há tanto tempo eu de medo a escondo que esqueci que a desconheço, e dela fiz o meu segredo mortal.
 
Clarice Lispector - Para não esquecer


Fria, pálida e absorta em suas verdades absolutas ela não era mais ser, apenas sonho.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Garota selvagem



Acho um saco os caretas e suas verdades perfeitas
Não dou a mínima para os bons modos e não faço questão de tratar pessoas bem por pura conveniência.
Não ligo pra conchavos
Desprezo etiquetas e se as atitudes forem contrarias do que prega tenha certeza que nunca acreditarei em uma palavra dita pela tua boca.
Tenho sangue quente
Tem meu respeito quem  fala o que sente e não tem medo de assumir que errou.
Não dou explicações a ninguém e tenho uma forte tendencia a estragar as coisas.
O que as pessoas pensam, pra mim são apenas restos e não me interessa
Não acredito em sorte e acho uma bobagem esse assunto de milagres.
O que desejo corro atrás e ganho.
Não temo a morte e nem acredito em Deus
Pertenço apenas a mim mesma
Vivo para aplaudir rebeldias
Moro nas ruas
Nunca serei teu amor
E  seria ótimo ter seu telefone.




quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Pra decorar teus dias


Nunca saberei me declarar com palavras, nem te direi frases feitas, essas tão clichês se eu realmente não sentir. O meu gostar se resumirá no entrelaçar dos dedos na tua mão e a certeza de que estarei perto toda vez que desabar. Gosto de ti pelo que és, venero tua alma nua e crua, teu lado negro, tua parte que sangra. Esbarro nas tuas verdades e te abraço me fundindo na incoerência do teu pulsar. Nada somos além de meros fragmentos desses tantos "eu's" que nascem e morrem dentro da gente você sabe, contudo foi olhando para você numa dessas manhãs casuais que você acorda com a cara toda amassada, morrendo de sono que minhas confusões e vazios existenciais se solidificam numa única certeza: a felicidade existe e tem nome.




quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014




Tento te olhar, mas a luz que emana queima meus olhos.
Tu és como uma atriz que acabara de sair de um antigo filme francês, bela e fria. Acompanho teus movimentos e ardo em desejo quando teus lábios perfeitamente desenhados pelo batom vermelho seguram o cigarro enquanto gentilmente ofereço o isqueiro. E assim perdidas no meio da fumaça, nas trevas do meu coração, bebo tua alma, te beijo. 

domingo, 26 de janeiro de 2014

#AbraceSantaMaria




O dia nasceu cinza, o Rio Grande do Sul chorou e o mundo acolheu e chorou também. Tantas vezes presenciamos a realidade ruir que por vezes penso que a vida foi feita mesmo pra gente se desfazer. O dia nasceu pesado, cheirando morte, roubando sonhos. Histórias perdidas sem misericórdia, na labareda da chama. As partidas doem e no elo desse duelo desesperado é que se decide continuar fraco ou se entregar forte. Simples seria se assim fosse não é? Ansiamos ser inteiros e nos despedaçamos meio a meio, aceitando que nunca seremos para sempre. Amigos ou rostos jamais vistos tanto faz, são vidas, famílias que choram... À todos meus sentimentos, vão em paz, estejam em paz cheios de luz.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Fincou-se no meu peito uma vontade bonita de ver o melhor, de querer o melhor em todos e em mim. No fim creio que se descobre que quando se chora é para aprender um jeito novo de sorrir, uma forma mais pura, diria até mais sincera, porque não?


Por onde andei...


 Há quem diga que não há nada mais solitário do que uma doença mental . Partindo dessa afirmação ver o outro não como um ser patológico, mas como humano constituído de emoções e desejos oferecendo ao mesmo, afeto e atenção, mais do que nobre é um ato de amor a causa e profissão. Tais atitudes me fazem pensar que as coisas podem sim ser diferentes, a muita resistência sem duvidas, mas também a muita força de vontade. Lugares como este, solidificam minha escolha e me fazem querer lutar também. Gratidão a hospitalidade e parabéns pelo trabalho. obs: Objeto acima foi confeccionado pelos usuários na oficina de bonecas do CAPS Cais Centro - Porto Alegre RS

domingo, 19 de janeiro de 2014

Fiz as pazes com a vida, joguei fora o que fazia mal e tratei de me redimir com as pessoas que por idiotice ou imaturidade magoei. Crescer dói pra caramba, contudo tenho aprendido que no fim tudo é aprendizado. Que assim seja!

"Perdoa o que puder ser perdoado. Esquece o que não tiver perdão."

domingo, 12 de janeiro de 2014


Seus olhos carregados de afeto me abraçavam ansiando proteger-me de tudo. Eu engolia o choro e tentava puxar do fundo um jeito bonito pra te sorrir. Entre nós havia uma mistura de dor com a vontade que se fazia mais forte de desejar que tudo não passasse duma brincadeira de mau gosto do acaso. Não era.
Não havia nada a ser feito, era grave e estava avançado demais. Restava apenas a aceitação de que eu estava fadada ao processo lento de morte que acabara de começar. Engraçado, tanto tempo fora isso que eu quis, mas hoje, só agora eu queria acordar no meio da noite, te abraçar forte e agradecer por ter sido apenas um sonho ruim.
Perdoe a inutilidade do meu abraço atrasado, eu ainda não sei como me despedir.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Só lembro de eu mesma me perguntando, será que esquecer é a mesma coisa que ter perdido?



terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Falando consigo mesmo, jorrava de sua boca toda a ternura que era incapaz de lançar ao mundo. Ficou conhecido como o rapaz dos fantasmas. Durante muitos anos foi visto na mesma varanda, repetindo frases inteligíveis e cheias de amor.

Até que tudo terminou disfarçado de tristeza no silêncio que o vestiu.


Tiago Fabris Rendelli


Ao verme que irá roer o resto daquilo que fui, à carne hoje pútrida embebida nos destilados e purificada pela cocaína suja, dedico a glória da minha maior vitória: a morte. E dessa forma, coroado rei de mim, enquanto o sangue pelos cortes jorra, dou as costas e parto.  


sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.

Trecho da Peça "Viver sem tempos mortos", inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir.

É assim que me sinto: amanhecendo.




 Era apenas eu e a promessa seca de um futuro manso, ainda que pouco sempre me pareceu melhor que o resto.