Era mais uma garota que vestia preto e curtia rock and
roll. John fazia o tipo certinho, falava palavrão só quando esbarrava em alguma
cadeira ou quando deixava qualquer coisa cair, incrível mas ele conseguia ser
mais desastrado que eu. Um palhaço nato arrancava sorrisos meus nos dias
mais cinzas e densos. Sentia-me leve perto dele, sem máscaras e proteção
nenhuma. John era meu porto, o lar que nunca tive, mas esse sentir me
assustava, não sabia muito sobre esse negócio de amor e "mimimi" e o pouco que
sabia acabava com lagrimas e um pote de sorvete.
- O resto são coisas banais, sem valor algum. Esqueça! Olha
para mim, deixa eu cuidar de ti. Dizia.
Mergulhei de cabeça morrendo de medo, sem saber direito o
que seria de nós, se é que seriamos algo. O cuidado que tinha para comigo,
aquele jeito doce, cada pequeno detalhe despertou em mim uma paz infinita de
uma ternura indescritível, entretanto vivia para ser livre, mas por descuido fui gostando de ficar. John ensinou-me a simplicidade das pequenas
coisas, eu era uma criança em suas mãos, conhecendo o mundo pela primeira vez.
Ele cuidava de mim como seu eu fosse seu sol, seu maior tesouro. Resolvi
tentar, não tinha nada a perder, lutaria então com todas as forças para que
desse certo, para que não fossemos mais um casal de estranhos após um final frustrado.
Nunca tive muita coisa, só tentava sobreviver nesse mundo louco, mas perto dele
eu sentia-me uma heroína de antigos gibis. Buscando o melhor estava
disposta a fazer qualquer coisa para não perder o encanto aos seus olhos.
Desprezando passado, traumas e medos construímos nosso pequeno castelo
desenhando nossos caminhos povoando cada
canto sem vida e colorindo qualquer espaço antes sem cor. John passou a
chamar-me de pequena e eu apelidara ele de anjo nos fazíamos perfeitos em nossa
imperfeição, unidos pelo laço atemporal que nos prendia até o amor deixar de
ser.
Talvez a felicidade não passe de utopia, mas é uma utopia
feliz nos completávamos e arrisco dizer que sempre será assim, porque somos um
arará do outro, sabe aquele pássaro colorido em extinção que vive sendo par de
apenas um pelo resto da vida? Não saberia viver sem seus olhos em cima dos
meus, nem sem aquele sorriso quando acordo rabugenta. Quando olho para John tenho vontade de chorar, não de tristeza mas cada gargalhada é como uma nota
musical que me toca o coração e me faz querer dançar revelando que a vida só tem
sentido quando encontramos alguém para dividir os dias. Perdoa minha falta de
jeito, nunca soube expressar o que sentia. Sem promessas caminho ao seu lado
até quando minhas pernas estiverem fracas e meu rosto coberto de rugas.
Estarei ao seu lado te acompanhando com um sorriso largo porque tudo que a de
bom em mim, existe porque um dia você me amou.
Pagina do diário encontrado dentro de uma gaveta empoeirada
na casa dos Corbett. Segundo relatos a casa tivera sido um cenário de amor sem
fim até a morte em 1989 de Ana Corbett por causas naturais. Sete dias após a
morte da esposa, John Corbett fora encontrado sem vida com um tiro na fronte e
um revolver calibre 38 em mãos. Dizem que o mesmo faleceu porque a vida era
pesada demais sem o amor de sua arará.
Nova York, 23 de outubro de 1999.



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