"Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado. Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Por exemplo: um garoto tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha. Um velho que esperou a visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha. Até um cara assoviando leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha. Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. Toda ilha é verde. Uma folha caindo é ilha cercada de vento por tudo quanto é lado. Até a lágrima é ilha, deslizando no oceano da cara."
Oswaldo Montenegro
Comovo-me em excesso e tenho por sede o mundo desde que rasquei o ventre de minha mãe. A intensidade é uma doença contagiosa. E eu não concebo a vida sem contágios. Se vim ao mundo, foi para desenhar meus pés na terra inexplorada e me entregar ao amor.
Tenho por oficio pular muros e deslumbrar horizontes que me levem muito além da perspectiva dessas calçadas irregulares. Sou uma máquina desejante de poros abertos que solvem a vontade enquanto ardo nas paixões.
Sou incapaz de submeter-me à adequação da banalidade das relações que se atravessam e condensam em laços efêmeros. Eu nunca vou funcionar direito. Sempre me senti fora do contexto, tropeçando na normalidade, emanando solidões.
O vazio das multidões me alimenta. Acho que não nasci mesmo para acompanhar ninguém. Sou o que sou. Pertenço somente a mim e a mais ninguém. A alegria é a loucura que levanto como um facho na escuridão e em tempos de feiura. O caminho eu mesma traço, sem planos ou promessas. Porque de nada adianta saber, já que a vida não leva em conta os planos que a gente faz e promessas são só palavras enfeitadas com o intuito de amenizar o pavor da certeza que jamais homem algum terá.
De faltas me fiz só. Na dor todo mundo é igual. Eu sou ilha, todos são.