quarta-feira, 30 de julho de 2014

Utopias

“Resta esta história que conto, você ainda está me ouvindo? Anotações soltas sobre a mesa, cinzeiros cheios, copos vazios e este guardanapo de papel onde anotei frases aparentemente sábias sobre o amor e Deus, com uma frase que tenho medo de decifrar e talvez, afinal, diga apenas qualquer coisa simples feito: nada disso existe.

Nada, nada disso existe."

Caio F.



Desenhei você numa lembrança bonita e te esperei ansiosamente com duas xícaras dispostas sobre a mesa do meu café que nunca dá certo. Da espera esse desassossego impregnava os cantos do apartamento vazio de nós e assoberbado das cinzas da nossa história tão linda e louca. Como num eixo que em mim estabelece a vida, lembro-me perfeitamente o quão bom era contemplar tuas simplicidades e a forma doce que ser humano algum antes de ti fora capaz de perturbar o canto dos meus lábios ressacados pelo frio. Nosso relacionamento sempre foi diferente dos demais, a começar pelos apelidos "Fofinhos" eu era a sua trouxa e ele meu idiota e riamos muito disso. Recordo das vezes que fechava a cara e me chamava de marrenta porque eu nunca falava o que sentia nem dava o braço a torcer e eu sempre fingia me irritar só pra que ele me tivesse em seus braços mais uma vez. Ah meu menino a vida corre rápido demais e você sabe eu nunca fui muito boa com as palavras, mas tenha certeza, se eu tivesse mais uma alma para dar, eu te daria.

PS: A porta continua entreaberta e o coração também. 





"A Magia começa em você. Quando aprender a sentir sua própria Energia, Verá que Ela está presente em cada Ser..."



quarta-feira, 23 de julho de 2014

A companhia solitária da solidão dos próprios órgãos



"(...) pois se de um lado a morte me abraça, do outro  a vida me chama."

Lya Luft






Eu os olho com olhos, tão cheios de ironias e cansaços, na certeza que ser humano algum fora e será capaz de desvendar o que há por trás da opacidade dos olhos meus. Do momento que o ventre sagrado de minha mãe fora rasgado até o aqui, agora em que minhas mãos já tremulas tentam firmar a caneta, declaro que minha glória é não acompanhar ninguém.

Eu sinto o mundo como uma ciranda, uma enorme roda que boa parte anseia fazer parte. Nessas cantigas aprendi desde cedo vendo-os girar que se ama o que é fácil e conveniente e o outro a eles nada serve, aliás, é útil apenas para tapar buracos ou como curativos para as antigas feridas. Para os que dançam na roda as palavras não tem valor, são meros clichês devidamente decorados e espalhados aos quatro cantos. 

De fora eu observo a dança, uma vez que, dessa ciranda eu fui expulsa quando nasci. Fui banida porque meu destino é  ter amor por essas gentes que chegam e partem, gentes que aos poucos as pessoas vão se esquecendo, mas dessas vidas embebidas de afeto, não esqueço, tais repousam no meu coração de chumbo e como um menino cerram os olhos e apenas dormem. 

Da minha jornada, os instantes foram dedicados à busca pelo que sobra depois dos abraços apertados e dos olhares que se cruzam e se perdem. As minhas veias ardem os versos antigos e as canções esquecidas. Talvez minha vida seja mesmo um vendaval que se levantou. Não sei pra onde vou, nem sei se existe um porto em que meu corpo adoecido possa atracar, no entanto em pleno gozo das minhas faculdades mentais declaro que até o leito da minha morte renunciarei as cirandas e clamarei por memórias doces e silêncios para que então enfim eu possa tocar a senhora de olhos doces que sempre me foi roubada, paz.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Forasteiro

E nem sequer
Era primavera.
E disseste que margarida
Era amarelo e branco
E eu disse que branco era paz,
E disseste que amarelo era desespero.
E dissemos quase juntos que margarida era então desespero,
cercado de paz por todos os lados.

Caio Fernando Abreu



Na incompletude dos pedaços desconexos que me constituem, eu habito o planeta vermelho inanimado: marte. Sou fruto do limbo e da estéril atmosfera da qual mais tarde florescerão espinhos. Provenho da simultânea linhagem extinta antes mesmo de vingar,  adaptando-me a paisagem imposta e o doce fel que como pão me alimenta.
Desse planeta caótico, do emaranhado de pensamentos que se misturam e tudo mais que cabe nesse amor, estamos você e eu aqui, girando a 10mil km/h na imensidão do sistema solar desafiando os deuses e seu poder esmagador de alterar e definir destinos. 
Na promessa de preencher os vazios, me ocorre que durante anos o sonho tenha permanecido adormecido imerso na escuridão da minha caixa torácica. Enfim, dessa práxis do improvável, junto com a epifania da desordem, consigo finalmente batizar essa loucura com meu próprio nome e ao contemplar a margarida que floresce no solo árido quando estica os dedos e segura minha mão, descubro finalmente porque nasci.