O dia nasceu cinza, o Rio Grande do Sul chorou e o mundo acolheu e chorou também. Tantas vezes presenciamos a realidade ruir que por vezes penso que a vida foi feita mesmo pra gente se desfazer. O dia nasceu pesado, cheirando morte, roubando sonhos. Histórias perdidas sem misericórdia, na labareda da chama. As partidas doem e no elo desse duelo desesperado é que se decide continuar fraco ou se entregar forte. Simples seria se assim fosse não é? Ansiamos ser inteiros e nos despedaçamos meio a meio, aceitando que nunca seremos para sempre. Amigos ou rostos jamais vistos tanto faz, são vidas, famílias que choram... À todos meus sentimentos, vão em paz, estejam em paz cheios de luz.
Onde habitam as palavras ainda castas, ainda ingênuas, ainda crianças, ainda com medo do escuro.
domingo, 26 de janeiro de 2014
sábado, 25 de janeiro de 2014
Por onde andei...
Há quem diga que não há nada mais solitário do que uma doença mental . Partindo dessa afirmação ver o outro não como um ser patológico, mas como humano constituído de emoções e desejos oferecendo ao mesmo, afeto e atenção, mais do que nobre é um ato de amor a causa e profissão. Tais atitudes me fazem pensar que as coisas podem sim ser diferentes, a muita resistência sem duvidas, mas também a muita força de vontade. Lugares como este, solidificam minha escolha e me fazem querer lutar também. Gratidão a hospitalidade e parabéns pelo trabalho. obs: Objeto acima foi confeccionado pelos usuários na oficina de bonecas do CAPS Cais Centro - Porto Alegre RS
domingo, 19 de janeiro de 2014
domingo, 12 de janeiro de 2014
Seus olhos carregados de afeto me abraçavam ansiando
proteger-me de tudo. Eu engolia o choro e tentava puxar do fundo um jeito
bonito pra te sorrir. Entre nós havia uma mistura de dor com a vontade que se
fazia mais forte de desejar que tudo não passasse duma brincadeira de mau gosto
do acaso. Não era.
Não havia nada a ser feito, era grave e estava avançado
demais. Restava apenas a aceitação de que eu estava fadada ao processo lento de
morte que acabara de começar. Engraçado, tanto tempo fora isso que eu quis, mas
hoje, só agora eu queria acordar no meio da noite, te abraçar forte e agradecer
por ter sido apenas um sonho ruim.
Perdoe a inutilidade do meu abraço atrasado, eu ainda não sei como me despedir.
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Falando consigo mesmo, jorrava de sua boca toda a ternura que era incapaz de lançar ao mundo. Ficou conhecido como o rapaz dos fantasmas. Durante muitos anos foi visto na mesma varanda, repetindo frases inteligíveis e cheias de amor.
Até que tudo terminou disfarçado de tristeza no silêncio que o vestiu.
Tiago Fabris Rendelli
Até que tudo terminou disfarçado de tristeza no silêncio que o vestiu.
Tiago Fabris Rendelli
Ao verme que irá roer o resto daquilo que fui, à
carne hoje pútrida embebida nos destilados e purificada pela cocaína suja, dedico a glória da minha maior vitória: a morte. E dessa forma, coroado
rei de mim, enquanto o sangue pelos cortes jorra, dou as costas e parto.
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
A impressão que eu tenho é de não ter envelhecido embora eu esteja instalada na velhice. O tempo é irrealizável. Provisoriamente, o tempo parou pra mim. Provisoriamente. Mas eu não ignoro as ameaças que o futuro encerra, como também não ignoro que é o meu passado que define a minha abertura para o futuro. O meu passado é a referência que me projeta e que eu devo ultrapassar. Portanto, ao meu passado eu devo o meu saber e a minha ignorância, as minhas necessidades, as minhas relações, a minha cultura e o meu corpo. Que espaço o meu passado deixa pra minha liberdade hoje? Não sou escrava dele. O que eu sempre quis foi comunicar da maneira mais direta o sabor da minha vida, unicamente o sabor da minha vida. Acho que eu consegui fazê-lo; vivi num mundo de homens guardando em mim o melhor da minha feminilidade. Não desejei nem desejo nada mais do que viver sem tempos mortos.
Trecho da Peça "Viver sem tempos mortos", inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir.
Trecho da Peça "Viver sem tempos mortos", inspirada na correspondência de Simone de Beauvoir.
É assim que me sinto: amanhecendo.
Era
apenas eu e a promessa seca de um futuro manso, ainda que pouco sempre me pareceu
melhor
que o resto.
quarta-feira, 1 de janeiro de 2014
O sonho de Ícaro
O ponteiro do velocímetro marca 100 km e a mão segura firme
o acelerador. Quando o vento bate no rosto, sinto como se pudesse voar. As asas se abrem independentes, belas, e
assim começam a bater, numa pulsão incontrolável que mal consigo respirar. À
medida que me distancio do solo ignorando o medo infantil de altura bato com
mais força as asas, parando somente quando o sol toca minha pele e
delicadamente arranca e destrói pedaços da epiderme e terminações nervosas.
Permaneço estagnada no vazio do abraço imaginado, consolando-me na ausência
agora física através da dor berrante da carne viva. Nessa hora o ser mitológico
Ícaro toma o pensamento, me sinto como ele, meu anseio de alcançar o céu é tão
forte que um só fragmento do imenso desconhecido faz-me sentir Deus. No entanto
a realidade desperta como uma bofetada, a mortalidade é um limite insuportável,
e assim começo a cair.
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