segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Dueto

Consta nos astros, nos signos, nos búzios
Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás
Serás o meu amor, serás a minha paz
Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas
Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais
Serás o meu amor, serás a minha paz
Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar
Mas se o destino insistir em nos separar
Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas
Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos
Profetas, sinopses, espelhos, conselhos
Se dane o evangelho e todos os orixás
Serás o meu amor, serás, amor, a minha paz.

Chico Buarque de Hollanda


Dizem que quando a gente menos espera as coisas boas acontecem, talvez seja mesmo isso. Lembro de quando à vi pela primeira vez, era uma manhã rotineira de sexta-feira ou seria sábado? um dia desses azuis (como amo dias assim), fazia um frio incomum de primavera , eu vestida a velha calça jeans e um all star rasgado, sai a fim de comprar o novo livro do Caio F. e por Zeus que obra linda. Devorando as prateleiras , mergulhei naquele mundo de contos e fantasias e quando dei por conta já estava atrasada para o compromisso marcado, joguei tudo dentro da sacola, paguei e me dirigi à porta apressando os passos. Ao me aproximar da saída, deparei-me com uma figura atrapalhada de menina/mulher, que segurando uma pilha enorme de livros tentava em vão adentrar à livraria. Mal conseguia ver seu rosto, prontamente ofereci ajuda, pegando um por um dos itens e colocando sob a mesa vazia. Quando finalmente vi seu rosto, ela sorria para mim, com olhos de gratidão, de antemão meu corpo ficará paralisado na presença daquela moça que nunca havia visto antes, não sei bem porque, mas soube que era daqueles olhos que minha alma precisava.

- Obrigada pela gentileza! ela diz.
- Não foi nada. Falo meio sem jeito
- Boa pedida, essa obra do Caio toca a gente. 
- Eu sorrio. Se for como os outros com certeza tocará.
- Me chamo Julia. Diz ela
- Prazer, sou Marie.

E assim sorrimos juntas nos perdemos na imensidão do desconhecido de nós. Desperto com o som do celular , meio dia, preciso ir. Me despeço com um "foi bom te conhecer" e sigo como se um anjo tivesse tocado meus lábios trazendo o sorriso de volta. Os dias que seguiram foram meio confusos, Julia não saia da minha cabeça e por mais estranho e irracional que pudesse ser eu queria voltar a ver aquela estranha que mexerá comigo. Certa vez ouvi dizer que quando pensamos com força em alguém, o universo tece os caminhos até o encontro, papo furado astrológico ou não, tornei a vê-la numa cafeteria do centro.

O acaso havia nos pregado uma peça e assim que o mundo parou de girar, caímos na doçura singela dos corações à tempos desertos. Em meio a conversas sobre antigos filósofos e ideologias florescerá o começo do sentimento mais bonito que vivi até hoje. No final daquela noite o beijo meio desastrado roubado e consentido dera inicio a nossa história e desde então nada soube fazer além de ama-la. Julia fizera por mim o que nunca ninguém fez, acolheu minhas dores, respeitou meus silêncios (que já não existem) e me amou, sim amou-me incondicionalmente como ser humano cheio de defeitos e qualidades que sou. Eu fiz o mesmo e cada dia tenho um novo motivo para me apaixonar mais uma vez.
 Hoje refletindo sobre que palavra usar para descrever o que temos, conclui que não é amor, sei lá acredito que o amor é meio paranoico, cheio de expectativas e promessas que jamais serão cumpridas. Hoje quando pensei no que temos, perdida em meus pensamentos enquanto esperava o ônibus, ainda sem uma resposta, retiro  bolso da calça antes de embarcar uma nota de cinco pilas e um bilhetinho. E foi assim que o cobrador ganhou um sorriso apaixonado que não pra ele e eu sanara todas as minhas interrogações. O que temos não é amor, é muito melhor.





sábado, 23 de novembro de 2013

Porque eu pensei em você. Só porque pensei em de você

Hoje, pela primeira vez, eu a chamei de MEU AMOR. E, nós sabemos, foi isso que ela se tornou.




Ela tens a beleza extraordinária daqueles que carregam a pureza singular no peito e seus olhos, ah seus olhos, derramam sobre mim um punhado de amenidades trazidas pelos ventos da primavera que não se vende em mercados nem se compra em qualquer farmácia. Tu me tens fácil demais, meus braços te procuram abertos por esses corredores cheios e esquinas vazias, espero por teu beijo no começo e final de cada dia, porque pertenço a ti e tu me pertences, sem amarras ou possessividades. E assim num rodipio, girando juntas nos completamos sem pressa ou urgências no decorrer das estações porque fundei meus pilares no teu gesto mais simples e sem maquiagens ou brilhos falsos nosso encontro aconteceu, não sei bem como, nem por quê, só sei que era para ser - e a gente nem imaginava que podia ser assim tão bonito.
Quando os esforços de nada fazem efeito sobre a mente adoecida e os sonhos tornam-se lar de monstros e atrocidades, o corpo enfraquecido implora à legião de anjos que o cerca, suplicando piedade, todavia em vão. Então os olhos se fecham lentamente enquanto o dragão que mora comigo abraça-me com seus braços cobertos de espinhos, rasgando as frias carnes e perfurando os órgãos pútridos de mim, à medida que desfaleço caindo num sono eterno de morte e dor.



quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A flor mais torta do mundo...

Sobre dar flores, sem arranca-las.



Um novo capítulo

 Aos que se perdem em meio a magia dos livros, um conto de "Quando as palavras se abraçam" da sempre linda Marla de Queiroz


Posso ver a claridade além do sol, antes disso, nuvens se aconchegam juntas sem nenhum trovão. São delicados os ventos do outono.Caminho em direção à chuva que desabrocha adiante e entrego meu corpo às águas que o céu despeja em uníssono com meus derramamentos.Todas as minhas expectativas frustradas escoando pela terra.Tenho tudo que preciso e abro o peito e os braços e digo um SIM sonoro para o que meus olhos alcançam, o meu peito suporta e o mistério penetra.Eu me sinto em casa: tenho a imensidão do mar e horizontes inalcançáveis. E o que me faz caminhar é essa sucessão de desafios que não cessam, para que eu conheça meu poder de superação.

Eu construo minhas estradas e meus navios.E depois os aprimoro.E para que navegue ébria ou caminhe resoluta numa linha torta, preciso estar forte feito rocha. Eu moro nos mirantes quando preciso montar a trajetória dos meus próximos mapas. E abraço cada sensação que tenho ao apontar com o dedo meu próximo lugar sem um provável endereço.E, em vez de cidades, encontro sentimentos_ países inteiros a serem explorados: Amor, Medo, Confiança, Insegurança, Solidão... Meu destino é a Sabedoria. Não procuro atalhos, sei que é longa a travessia.

Estou virgem e confiante para que nada corrompa minha inocência, o que não significa ingenuidade. Não guardei memórias de dores ou desesperos passados. Eu me apeguei ao aprendizado. Eu me perdoei faz muito tempo. Sinto apenas que vivi as escolhas que fiz e não há erro nisso. Eu só tinha maturidade para experiências específicas e foram elas que me conduziram ao meu coração, a minha fonte criadora. Tenho tanta força em mim que não poderia guardá-la apenas para momentos adversos, tive que usá-la também na experimentação de um prazer exagerado, na minha sede pelo gozo absoluto.

No meu trabalho interno pelo desapego foi quando descobri que sempre me faltou fome, mas me sobravam apetites. Agora já percebo quando ainda não é a hora do mergulho, mas a de me encharcar sobre as superfícies. Percebo quando não sou eu quem tem de penetrar a água, mas de deixar que ela escorra sobre mim. Aprendi a me oferecer mordomias emocionais como adiar decisões dolorosas e a de ter a disciplina de cumprir rigidamente meus prazos.

Antes eu pensava que nunca havia tempo suficiente, hoje eu percebo que o melhor emprego do meu tempo é neste desvelar de mim mesma, nesta busca por uma orientação interior tão nítida que nada se misture à inquietude dos meus desejos. (Nem sempre se deseja o que é melhor) Não há mais lamentos, sou eu quem governa a minha vida e o meu tempo. Sou eu que escolho quem vai conviver comigo e participar da minha (auto)biografia, ser o foco da minha poesia ou desfrutar comigo apenas um breve e intenso momento.


(Posso ver com clareza além do sol...agora.)


domingo, 17 de novembro de 2013

Íkarus


Não ousava encará-lo: acreditava que seria necessária uma longa aprendizagem antes de submetê-lo à visão da minha face. Não que ela fosse excessivamente feia ou disforme, não se trata disso. Mas é que não havia no meu rosto nada de peculiarou de interessante, nada que fosse digno de seu olhar. Ele tinha um olhar feito somente para coisas dignas, esclareço. tratava-se realmente de um anjo. Não sei se arcanjo ou serafim, mas indubitavelmente, irreversivelmente, inconfundivelmente — um anjo. Era Íkarus.




Nascera porque ainda não sei o que fazer com o carinho que brota do peito nessas noites de fomes tão urgentes.

sábado, 16 de novembro de 2013

Sentimentalidades

E, antes que o mundo acordasse, escapou do abraço inocente
deixando somente um bilhete e um abismo no lugar do afeto.

Marla de Queiroz 



Num despertar de lucidez o véu se rasga dentre olhos revelando tudo que fora velado e desgastado pelos mármores do tempo. De antemão a primeira reação do cérebro sob ameaça, foi se colocar em alerta, repelindo todo e qualquer gesto que ameaçasse o utópico mundo de fantasias, em seguida vieram os afastamentos e foi o que mais doeu...
A verdade crua fizera o encanto pelo humano cair ao chão e o que sempre pareceu bonito nos laços, agora não é nada além de um devaneio alimentado pela ingenuidade do amor inventado. Uma vez que se conhece a nudez da realidade imposta o sujeito se deforma e aquilo que ontem era tudo, hoje é sinonimo de nada.
 Se pudesse fazer o uso de uma metáfora diria que a lucidez é uma estrada esburacada, um caminho de muitos eu's, onde tudo parece não fazer muito sentido. A regra é simples, para atravessar a linha tênue, não é permitido lamurias, bagagens ou lembranças. Para chegar até a linha é necessário saber lidar com o segredo mais doloroso - vivemos de despedidas, pois nascemos de um parto - aprende-se a sobreviver depois de tantas partidas e seguir em frente em meio aos estilhaços do que um dia te fizera inteiro. 
 No final, a medida que se vai vivendo, se vai ficando cada vez mais estrangeiro, com o passar o tempo, tu acaba cobrindo a boca e os ouvidos entupidos de buzinas, tu já não espera nenhuma carta, nem telefonema. Com o tempo o vazio acaba te preenchendo e então só te resta apenas o consolo do piso frio e esse dom (ou carma) de conhecer a verdadeira face dos caminhantes filhos do mundo. A vida é feita de solidão medonha e há tempos sinto falta de ter algo entre as mãos agora que deixei de fumar.

domingo, 3 de novembro de 2013

Os palhaços também choram





 Ninguém ama um bobo, dissera ele baixando os olhos na tentativa de esconder as lágrimas. E eu sempre fui um grande bobão moça.