sexta-feira, 17 de novembro de 2017



"Um dia porém sentia seu corpo aberto e fino e no fundo uma serenidade que não se podia conter, ora se desconhecendo ora respirando em alegria, as coisas incompletas. Ela mesma insone como luz - esgazeada, fugaz, vazia, mas no fundo um ardor que era vontade de guiar-se a uma só coisa, um interesse que fazia o coração acelerar-se sem ritmo... de súbito como era vago viver."


O Lustre, Clarice Lispector




A vida só acontece no limite da zona de conforto. Você me falou.
E eu disse que limite 

existe pra ser ultrapassado e só.

E eu nunca olho para trás, você bem sabe.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Notas sobre um abismo

“Mas o que acontecerá, se descubro, porventura, que o menor, o mais admirável de todos, o mais pobre dos mendigos, o mais insolente dos meus caluniadores, o meu inimigo, reside dentro de mim, sou eu mesmo, e precisa da esmola da minha bondade, e que eu mesmo sou o inimigo que é necessário amar?”

 C.G. Jung






Logo no começo lembro-me de ouvir sobre neutralidade, ou a possibilidade de uma blindagem ao outro que nos vem num pedido de ajuda. São tantas as teorias e a magnitude de seus conceitos que vislumbram abraçar a plenitude da infinita complexidade incompreensível. Que seria a neutralidade senão o comodismo de manter-se a margem, de não deixar-se tocar e afetar-se pelo sujeito que vem ao encontro, se despe por completo e dispõe sobre as tuas, as minhas mãos distraídas, a fragilidade há tempos escondida, de si próprio e da impiedosa velha safada: vida.

Ao tocar uma alma é que se percebe a neutralidade não existe, nem poderia. Carl Jung disse uma vez "ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana", particularmente acredito muito. A psicologia não nos torna senhores de nenhum saber, donos de uma verdade inquestionável e absoluta (que é a verdade/mentira?). O oceano do desconhecido mundo é indecifrável, e é exatamente isso que nos torna mais humanos e menos deuses.

Na ingenuidade do meu saber, eu romantizava o "ser psicólogo" como um super herói detentor do magnifico poder de mergulhar no abismo do outro fragmentado onde pelo passado/presente é devorado e assim traze-lo enfim a luminosidade da superfície. Facilmente dessa forma. Mal sabia que eu da crueza da insuficiência humana. Foi sem delicadeza alguma que descobri. Não sou herói, não tenho asas, super poderes e muito menos tenho uma capa.

A primeira vez que alguém desabou sobre mim, foi como um enorme soco no estomago, literalmente. Com todas as forças a segurei na beira, meu contrapeso a impedia de mergulhar. Entretanto tempo depois, rápido demais acabou por escorregar se lançando ao fundo. Minha reação, sobretudo como bicho humano fora o querer resgatar, aquecer e cuidar da tua ferida, aquela que tu mais cuida e sangra. Mas eu não podia, não devia...

Perdi a noção do tempo enquanto imóvel permaneci olhando as águas escuras do teu mar. Na promessa de permanecer eu te acolhia da forma que eu podia (não tenho superpoderes você lembra?). Uma imensa pedra de concreto prensava meio peito enquanto lá você permanecia, e acho que é isso que costumam chamar de angústia. A sensação impotência me deixou de braços cruzados. Era preciso querer bater os braços e enfrentar seus demônios, e isso tinha que vir de você. 

Como eu queria tanto poder te avisar: Não vai por ali, segue por aqui. No entanto a vida nem sempre dá um ponto para traçar uma reta. Tudo bem ter dúvidas, se fosse diferente perderíamos o charme das inesperadas curvas e que graça teria viver sem cambalear por caminhos tortos.

Há quem diga que psicólogos são intocáveis, uma vez que são preparados, para caminhar entre as trincheiras e estilhaços. Terá dias que um ou todos nós nos debruçaremos encolhidos numa calçada qualquer, como uma criança que aos soluços chora depois de ralar os joelhos. Psicólogo também sente. Poucos entenderão.

Então sorrindo, sempre sorrindo do próprio abismo emergiu. Um ser renovado, repleto de vida. Os olhos ainda eram tristes, porém eu sabia e tu descobririas mais tarde que a estranheza por jamais se sentir pertencente nem daqui ou dali, era porque você se tratava de uma flor que nasce para dentro. Uma flor rara e doce, que nascia para dentro e esperava uma mão, um ombro ou qualquer gesto que demonstrasse afeto e importância.

Foi um longo caminho cheio de pedras e momentos caóticos. Estilhaçando teus medos MA-RA-VI-LHO-SA-MEN-TE escancarando todas as portas você finalmente desabrochou. Foi lindo demais te ver corajosa se entregando a escrita de uma nova história, a tua história.

- Obrigada por não desistir de mim. Quando até mesmo eu já havia. Ela disse. E eu sorri.
(sorrir com o coração era tudo que eu tinha e era seu).

Acomodada numa cadeira no canto da sala, percebo o movimento do tempo. No agora que a mim repousa entendo a possibilidade de "salvar" trançando as paredes da vida com gestos miúdes, ainda que eu seja um falho mortal.


quarta-feira, 31 de maio de 2017

“Nowhere man can you see me at all?”



Doeu pra caralho as pedras de gelo sobre a minha pele, e ao mesmo tempo eu te falava do meu ártico.

e isso, do Ártico, só você sabe.

Matilde Campilho



sábado, 6 de maio de 2017

O último poema



I was going to write you a poem
but then I didn’t
Ao invés disso eu me fiz promessas
I won’t say his name
Vi teu rosto sumindo 
I won’t say his name

(...)

I was going to love you forever
but then I didn’t.

Matilde Campilho






Andei muito só, por escolha própria, vontade, livre arbítrio ou como tu queiras chamar. Eu andava triste e muito só.
Tirei o telefone do guancho e tranquei todas as portas e janelas, deixando apenas uma pequena fresta por onde o sol pudesse entrar. 
Arredei os móveis do lugar e deitei. No piso gelado deitei descalça e permaneci imóvel olhando as estrelas que havia pintado no teto do quarto por horas ou talvez dias. Não havia tempo ou calendários era apenas eu e o mugido num túnel de uma velha dor.

Eu não era mais uma criança que acreditava em contos de fadas e heróis. Eu sabia da sujeira, da miséria gerada pelas noites desses dias tão iguais e de como eram pesadas as mãos da vida sobre a existência frágil mortal. Entretanto docemente eu segurava pela mão um pequeno amor antigo tão manso e puro que fazia-me recordar da alegria de um risco na parede desenhado à carvão pela parte criança que um dia fomos. 

Quando a realidade veio ela me acertou em cheio foi então que cai numa dor intangível. Eu já não tinha mais 19 anos mas sim, acreditava no amor. Aquele em que você voltava pra mim sorrindo e eu te segurava contra peito num abraço. 

Acho que chorei.
Chorei mais ainda quando compreendi que o amor não passava de um fantasma efêmero e você tinha esquecido. 

Poetas insistem em amar o já morreu por isso não é de se espantar que fecho os olhos e vejo você (sim eu ainda te vejo). Sempre te achei a pessoa mais bonita do mundo, nunca precisei te
 inventar, honestamente, amava tu despida e teu peito mar. 

Perdão, por favor me perdoe. Agora entendo que o amor só existe nos poemas, na mentira dos poemas e eu já não insisto mais.







domingo, 23 de abril de 2017

I wanna hold your hand







Para ler ao som de:



Joe Cocker - You are so beautiful


Enfio meus dez dedos na garganta da existência pra ver se vomito o  fragmento de um estado antigo de pureza perdido depois de tantas marcas. A vida nos torna seres estranhos, caçadores de nós mesmos, já percebeu?

Qual a máscara que você usa?
Qual poço você habita?
De qual ferida você cuida?

Eu não sei, ninguém sabe e convenhamos, alguém realmente se importa?
De que adianta despir-se quando o outro que vive lá do outro lado não sabe ver ou ouvir a floresta escura por trás da nudez? 

Confie em mim. Sempre soube como é não saber caber em si e acredite se houvesse uma única palavra no mundo capaz de mudar o estar das coisas eu daria a você.
Eu tiraria todos os móveis da alma do lugar para encontrar um espaço pra você morar sem medo.

Mas não, se iluda. nunca mais se iluda. Eu não sou herói  e na maior parte das horas como eles também não sei o que fazer quando o mundo começa doer.

 Não sei se te disse, mas pensar em você me faz esquecer todo o lixo que há do outro lado da porta do apartamento, digo da quitinete que habito.

Não sei se reparou, mas meus olhos sempre se iluminam na tua presença e isso é o presente mais bonito que nunca pedi ou sonhei um dia ganhar.

Perdoa meus excessos, especialmente pela parte que te toca. Sei o quanto lidar com sentimentos são difíceis para ti, mas prometi sempre dizer a verdade.

Nunca te contei, mas para mascarar a distancia te escrevo todas as noites. Ah, eu não sei o que é amor, entretanto se em alguma esquina, calçada, horizonte existe, ele deve nos salvar. 

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Minha melhor vibração de Axé

-Você gosta de estrelas?
-Gosto. Você também?
-Também. Você está olhando a lua?
-Quase cheia. Em Virgem.
-Amanhã faz conjunção com Júpiter.
-Com Saturno também.
-Isso é bom?
-Eu não sei. Deve ser.
-É sim. Bom encontrar você.
-Também acho.

(Silêncio)

Caio F.




- Não gosto de você muito certinha.
- É, acho que eu também não.
Sorrio.
- Sabes, geralmente eu não gosto de ninguém, mas acontece que contigo é diferente. Gosto quando tu vens, senta comigo e me faz rir de uma bobagem qualquer, me faz um bem danado.
- Isso é um elogio ?
Ela sorri e balança a cabeça como um sim.
- Vou fazer café, queres? Pergunto
- Sempre!

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Om Namah Shivaya


Estamos a sós e sem SOS. Não há terra à vista. Não há outros barcos. Não há outros seres humanos. Não há água potável. Os alimentos terminaram e já não temos mais força para continuar, pois os remos se foram, a vela se perdeu e o barco não tem motor. O que fazer?

Sobreviver.


Quando somos capazes de sair do casulo individualista, podemos abrir as asas devagar e, talvez com certa dor, voar além de nós mesmos.

MONJA COEN



Dois ônibus me levariam ao meu destino. Olhei as horas, "tô muito ferrada(...pensei)", estava mesmo. Torci para o segundo atrasar, não atrasou. Fui até o guichê, um cara me atendeu sorrindo, retribui.

- Se tivesse chego à 10 min antes tu teria pego ele. Disse o moço gentil

-PORRA, mas que PORRA do CARALHO!..

- Desculpa viu, não foi p/ você, eu, só precisava... me expressar rsrs. Eu disse.

Ele caiu no riso.


-Tem compromisso? disse ele.

-Sim, estou enquencada.

-Quer comprar a passagem p/ o próximo?

-Que horas ele sai? perguntei.

-Daqui a 2 horas.

(suspirei).. - Tenho outra escolha?

- É. Acho que não.

- Eu compro. disse eu

Agradeci e sai em direção aos bancos vazios da rodoviária deserta.Remexendo na mochila achei um bloco de anotações. Comecei a escrever sobre o que via. Sempre pensei que rodoviárias fossem uma espécie de esquinas do mundo, porque apesar de redondo, ainda tinha muitas esquinas, onde todo mundo acaba se encontrando ou perdendo um dia.

Estava sentada de pernas cruzadas, em posição de meditação. Não era nada especial, na verdade eu só queria me sentir confortável enquanto o tempo passava. Pouco tempo depois, conheci uma senhora muito gentil que veio até mim pedindo alguns trocados. Olhei na bolsa. Eu tinha cinco pilas. Dei a ela. Em gratidão ela rabiscou meu nome num caderno que trazia consigo, segurou minhas mãos e disse que lembraria de mim em suas preces. Beijei suavemente suas mãos marcadas pelo tempo (eu estava realmente comovida com tamanho afeto). A senhora então se despediu e partiu.
Como se preso numa ampulheta imóvel o tempo não passava. Não conhecia a cidade. Decidi andar sem rumo querendo encontrar uma praça e achei. Sentei, meditei, pensei em Shiva (segundo o hinduísmo é a personificação da força renovadora do universo). Quis me reinventar. Tomar um banho de chuveiro por dentro, ser outra mulher. Por um breve momento me senti parte de algo, ou de tudo. Pedi perdão pela raiva, ignorância e imprudência nascidos da minha boca, corpo e mente. Agradeci ao cosmos por tudo que tenho e pelas coisas novas e vivas que ainda estão por vir e desejei boas energias e um sol luminoso p/ todo mundo, já que, estamos todos no mesmo barco.


Um João de barro pousou à poucos metros de mim. Meu pedido fluiu e fora recebido com sucesso, pensei.