sábado, 22 de junho de 2013

Monólogo Interno



"Quero outra vez um quarto todo branco e um par de asas. Mesmo de papelão."





Nós só precisamos de amor e de fé em nós mesmos, essa é típica frase clichê auto-ajuda que se ouve por ai. A ideia é boa mas não funciona bem assim a vida é estranha, difícil, as coisas nem sempre acontecem como se imagina e tudo é tão frágil que me parece que o mais simples gesto torna-se capaz de acabar com tudo. Existir é doloroso, por isso inventamos esses mundos paralelos cheios de sonhos na tentativa de vedar os olhos e esquecer o quão assustador é a realidade.
 Há mim o que sempre pareceu inofensivo foi sempre o que me causou mais sofrimento. Eu sinto demais, tudo me toca, me sensibiliza, a dor do outro se faz minha pelo simples convívio ou mera delicadeza, mas sobretudo tenho um amor incondicional pelas pessoas mesmo  não sabendo lidar ou viver ao lado delas. 
A rejeição é marcada a ferro, só quem sente na pele sabe, o medo se faz mais forte sendo alicerce de qualquer relação criada. O abandono fere meu amigo, te quebra em pedaços e mesmo em cacos tu ainda sente. Não, eu não estou reclamando é apenas um pequeno desabafo. Num mundo onde estar aparentemente "feliz" é lei ser forte o tempo todo cansa principalmente quando não se sabe chorar. Perdoa minha falta de jeito, meio sem jeito, está amanhecendo está na hora de começar de novo quando a noite chegar conversamos novamente. Te cuida, te quero bem.

Julia ouve a voz da amiga e assustada escancará a porta com um golpe encontrando Monica jogada no chão com os olhos fixos na parede branca.

- Tá ficando maluca, falando sozinha?
Monica sorri.
- Monólogo interno Ju, monólogo interno.











segunda-feira, 17 de junho de 2013

Caio Fernando Abreu - Trechos


Ah: fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia, chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro o cheiro preciso dele.
Que não suspeitará de tua perdição, mergulhado como agora, a teu lado, na contemplação dessa paisagem interna onde não sabes sequer que lugar ocupas, e nem mesmo estás. Na frente do espelho, nessas manhãs maldormidas, acompanharás com a ponta dos dedos o nascimento de novos fios brancos nas tuas têmporas, o percurso áspero e cada vez mais fundo dos negros vales lavrados sob teus olhos profundamente desencantados. Sabes de tudo sobre esse possível amargo futuro. Sabes também que já não poderias voltar atrás, que estás inteiramente subjugado e as tuas palavras, sejam quais forem, não serão jamais sábias o suficiente para determinar que essa porta a ser aberta agora, logo após teres dito tudo, te conduza ao céu ou ao inferno. Mas sabes principalmente, com uma certa misericórdia doce por ti, por todos, que tudo passará um dia, quem sabe tão de repente quanto veio, ou lentamente, não importa.
Só não saberás nunca que neste exato momento tens a beleza insuportável da coisa inteiramente viva. Como um trapezista que só repara na ausência da rede após o salto lançado, acendes o abajur do canto da sala depois de apagar a luz mais forte. E começas a falar.

(Caio Fernando Abreu - Natureza Viva)

sábado, 15 de junho de 2013

O vento vai levando tudo embora


"Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és..."




Passávamos a noite em claro rindo de qualquer bobagem desmentindo o que o mundo lá fora nos fazia crer. Eu cantava  “oh, you don't realize how much I need you" enquanto ela permanecia intocável em seu silencio.   Não me importava porque palavra nenhuma era necessária, pertencíamos uma a outra e descrever seria nos limitar. Vivíamos em nosso pequeno paraíso aquele canto escondido, distante de tudo onde costumávamos fazer planos e sonhar. Eu não tinha muita coisa, carregava só uma mochila velha e uma carteira de cigarros, calçava meu melhor tênis, o único, um all star rasgado, mas tudo que tinha era seu. Com traços dessa minha caligrafia torta escrevi a mais bela e louca história ao seu lado e por não ter medo eu mergulhava de cabeça no oceano desconhecido do teu ser.

Eramos tão jovens que chegamos a acreditar que o "pra sempre" existia, mas a vida logo tratou de nos ensinar a ser fortes destruindo os laços que nos uniam. Eu morri no dia em que me deu as costas e partiu e mesmo quebrada ainda morro de novo pela certeza que tudo está fadado ao fim.

Ainda guardo no relicário de mim as lembranças mais bonitas de tudo o que fomos. Lembro das nossas iniciais talhadas naquela árvore, da reciprocidade mutua e da promessa. O tempo passou depressa demais, hoje eu sou das ruas de qualquer lugar existindo apenas quando pensar em nós. Você passa, finge não me ver, sinto vontade de gritar, pedir para que me toque com esses teus dedos frios para que me olhe no olho e plante qualquer carinho em mim. Tenho vontade de lhe pedir para que não sinta medo, que segure a minha mão e escute as poucas palavras que direi, mas tomada pelo ódio, presa em um mundo onde não existe nós, você passa, finge que não me vê. Apanhado, sacudindo a poeira eu a amo, ninguém imaginava que eu fosse capaz de aprender, mas não só aprendi como hoje é tudo que sei. Todo mundo tem que ter fé em algum coisa para mim tudo que resta é o amor.