sexta-feira, 21 de agosto de 2015


Quando minhas mãos pálidas
deixarem cair a última caneta
em um quarto barato
eles vão me achar lá
e nunca saberão
meu nome
minha intensão
nem o valor de minha fuga

Charles Bukowski



Descarregou a pistola, perfurando o corpo que cambaleava até alcançar o chão. Foram 13 balas.
Mas uma bastou para dar fim a vida daquilo que já não se tinha controle. As outras 12 foi puro desejo de matar. 

Foi um crime perfeito, sem vestígios ou testemunhas. 

Matou por raiva, paixão e uma quase, talvez esperança de renascer, como um novo homem liberto do anseio que ritmava seu braço aventureiro a segurar o mundo. 

Matou em legitima defesa. Para nascer algo novo. Se nascer. 
Porque tudo é tão incerto.

Matou porque fora isso que aprendera na selva onde nascera. E fará tantas e outras vezes, quando o medo bater a porta e rigor do inverno chegar. 

Matou e matará, sem piedade quando descobrir que o amor é fatal e poder algum se tem sobre a ordem das coisas.

E por fim, o tempo desgastará os mármores e lhe trará rugas e cabelos grisalhos. Soletrará velhas palavras doces e generosas e em vão tentará sentir como antes, mas estará oco de vida e sonhos. 

Um homem apagado, que matou e foi morto. Soterrado pela vida em todas as noites do mundo que passa num quarto só.








terça-feira, 28 de julho de 2015





Era eu e a praça vazia coberta pelas folhas secas que cairam durante a estação. Deito sob o banco gelado disposto à frente das flores mortas pela friagem e aperto o play esquencendo os ponteiros do relógio.

Era eu, a praça vazia e a plenitude do silêncio sem dor. Irônico, mas sempre me sentia extremamente confortável em lugares de frequentes chegadas e partidas. Talvez fosse pela transitoriedade e impermanência das coisas quase tangível ou pelas tantas histórias e marcas impregnadas nas calçadas e mochilas dos que buscavam algo melhor que essa paranoia louca.

Levanto. Sorrio para o sol que agora se põe e ai lembro de uma canção da Elis Regina que diz:

Tenho um caminho do que sempre quis
E um saveiro pronto pra partir

Geralmente não olhava para trás quando partia, porque tinha mesmo medo ficar num pedaço qualquer e partir incompleta. Dessa vez, olhei. Eu queria fazer parte de tudo. Quem sabe voltar um dia.

sábado, 4 de julho de 2015

Eu vejo as placas dizendo

Não corra, não morra
Não fume...







Enquanto o batom vermelho sangue manchava o copo, a bebida descia queimando a garganta. Era a quinta dose de whisky e Minha cabeça já não girava, mas se derramava pelas calçadas esburacadas da cidade imunda que nasci. 

Ahh como eu detesto esse lugar!

Eu continuava perdida num silêncio denso. Onde nem uma legião de anjos poderia me salvar.

As pessoas tem medo de suas emoções. São um bando de crianças assustadas, com discursos auto suficientes. Foda-se, já fui assim também um dia, quando ainda me importava com alguma coisa.

A vida já foi várias coisas pra mim, do amargo a doce ilusão de plenitude...

Ouvi dia desses que suidicio é um ato heróico e sem falhas, já que é preciso uma pulsão de morte extremamente forte e uma coragem absurda para reconhecer a morte de dentro e dar um fim à tudo. Considerando o  egoismo inerente humano, acho que sou obrigada a concordar.

Quem sabe num dia desses, eu me surpreenda com essa coragem, quem sabe. 
No entanto hoje, eu fecho todas as janelas, deixando por alguns minutos o desejo de pular, volto para minha bebida e quase me sinto abraçada.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Mal traçadas linhas

“Escrevo para espantar a solidão que tua ausência me causa.(...) Ah Cazuza, você é o mar que me afoga e que me faz renascer, nas ondas, ou na praia, você é o pôr do sol do Arpoador e por fim, você está em mim, não por um segundo, mas de forma exagerada e eterna. Te escrevo, meu amor, porque a solidão me dói e você a cura.”

Eternas cartas para Cazuza




Ultimamente passo noites inteiras escrevendo cartas em sonhos. Sabes daquelas em que o intuito não é a entrega ao remetente, mas marcar o papel com um punhado de sentimentos e talvez até algumas lágrimas e incinerar. Para que no pó o universo absorva tudo que não pode ou convém ser dito.O curioso nessas manifestações tão urgentes é que eu acordo sempre na ânsia de não deixar que tais versos se percam, mas eles sempre se vão.

sábado, 21 de fevereiro de 2015

Tudo é outra coisa neste mundo onde tudo se sente



“O pensamento de ser alguém na vida não apenas me apavorava mas também me deixava enjoado. Pensar em ser um advogado ou um professor, ou um engenheiro, qualquer coisa desse tipo, parecia-me impossível. Casar, ter filhos, ficar preso a uma estrutura familiar. Ir e retornar de um local de trabalho todos os dias. Era impossível. Fazer coisas, coisas simples, participar de piqueniques em família, festas de Natal, 4 de julho, Dia do Trabalho, Dia das Mães... afinal, é para isso que nasce um homem, para enfrentar essas coisas até o dia da sua morte? Preferia ser um lavador de pratos, retornar para a solidão de um cubículo e beber até dormir.”

- Charles Bukowski.



quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

É que eu preciso dizer que Te amo, Bethânia.


"E eu - como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Minha vida o diga.
(...)Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura."

Trechos de Grande Sertão Veredas, Guimarães Rosa

De tudo que tenho, eis meu amor.
E nesse brotar a poesia que prevalece.
Nas asas de todos os pássaros. 
Na forma humana de Bethânia. 



Sou um poeta do mato
vivo afastado dos meios
minha rude lira canta 
casos bonitos e feios
eu canto meus sentimentos
e os sentimentos alheios.

e quando é preciso eu canto
a mágoa, a dor e a tristeza.

Eu posso dizer que cantei aquilo que observei.
Eu canto o que minha alma sente e o eu coração encerra.
As coisas da minha terra, a vida da minha gente.

(P. Antônio Henrique)




terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Solidões


"Ilha não é só um pedaço de terra cercado de água por tudo quanto é lado. Ilha é qualquer coisa que se desprendeu de qualquer continente. Por exemplo: um garoto tímido abandonado pelos amigos no recreio, é uma ilha. Um velho que esperou a visita dos netos no Natal e não apareceu ninguém, é uma ilha. Até um cara assoviando leve, bem humorado, numa rua cheia de trânsito e stress, é uma ilha. Tudo na gente que não morreu, cercado por tudo o que mataram, é uma ilha. Toda ilha é verde. Uma folha caindo é ilha cercada de vento por tudo quanto é lado. Até a lágrima é ilha, deslizando no oceano da cara."

Oswaldo Montenegro




Comovo-me em excesso e tenho por sede o mundo desde que rasquei o ventre de minha mãe.  A intensidade é uma doença contagiosa. E eu não concebo a vida sem contágios. Se vim ao mundo, foi para desenhar meus pés na terra inexplorada e me entregar ao amor.
Tenho por oficio pular muros e deslumbrar horizontes que me levem muito além da perspectiva dessas calçadas irregulares. Sou uma máquina desejante de poros abertos que solvem a vontade enquanto ardo nas paixões.
Sou incapaz de submeter-me à adequação da banalidade das relações que se atravessam e condensam em laços efêmeros. Eu nunca vou funcionar direito. Sempre me senti fora do contexto, tropeçando na normalidade, emanando solidões.
O vazio das multidões me alimenta. Acho que não nasci mesmo para acompanhar ninguém. Sou o que sou. Pertenço somente a mim e a mais ninguém. A alegria é a loucura que levanto como um facho na escuridão e em tempos de feiura. O caminho eu mesma traço, sem planos ou promessas. Porque de nada adianta saber, já que a vida não leva em conta os planos que a gente faz e promessas são só palavras enfeitadas com o intuito de amenizar o pavor da certeza que jamais homem algum terá. 
De faltas me fiz só. Na dor todo mundo é igual. Eu sou ilha, todos são.

sábado, 3 de janeiro de 2015


Cansada da matéria densa e pesada, às vezes me refugio assim...
Se tentares também tu consegues.