segunda-feira, 31 de março de 2014

Pássaros não nasceram para viver em gaiolas




Com os braços estendidos ela contemplava o vazio enquanto seus pés tateavam o parapeito. Os vizinhos evitavam tal lugar, talvez pelo fato de ser o último andar e pela possível vertigem que causava ao se  contemplar o abismo. Mas ela não tinha medo, um dia talvez como os outros tivera, não se sabe. Lá em cima o vento soprava forte e de longe se podia ouvir o som ensurdecedor das buzinas e dos telefones tocando. Nada era capaz de rouba-la daquele mundo, a menina parecia fazer parte de algo presente ali, todavia quando tentava explicar ninguém nunca a escutou.

Durante muito tempo observei-a pela vidraça tentando entender o que a fazia se equilibrar naquela linha tão pequena e porque não dizer frágil no alto do edificio. Certa vez alguém disse que ela nascera com a cabeça na lua, que vivia falando sobre fadas e anjos e de como o mundo podia ser mágico. Costumavam a chamar de louca porque pensava assim, porém eu nunca dei atenção a nada dito por pessoas que a mim pareciam ser tão iguais. 

Semanas passaram e não mais a vi. Tentei encontra-la em todos os cantos, até mesmo nos rostos comuns  que eu cruzava pelas ruas, sem sucesso. Permaneci imóvel naquela janela e por vezes acordei com a cara amassada sobre o vidro e nenhum sinal dela. Depois de um tempo acabei por me conformar, por não ver mais nem sua família, imaginei que pudessem ter mudado. No entanto, foi passando por uma banca de jornais que na primeira pagina lá ela estava, "Menina desaparece sem deixar rastros: pais estão inconsoláveis" , de imediato sorri, ninguém soube mas no final daquela nota compreendi, ela não sumira, apenas se atirou no abismo bateu as asas e partiu.

Nota: (...) Nenhum corpo ou vestígio de fuga foi encontrado. Os familiares derao falta apenas de um vestido branco de seda que havia sido dado pela avó e também havia um bilhete de sua própria caligrafia com as seguintes palavras: "* ...eu serei a tempestade, o dia de sol, o céu azul, a nuvem negra, a ressaca do mar, o voo de um pássaro ou de uma borboleta... mesmo com a asa quebrada."


* Frase: Marla de Quieroz

segunda-feira, 24 de março de 2014

O Segredo

Há uma palavra que pertence a um reino que me deixa muda de horror. Não espantes o nosso mundo, não empurres com a palavra incauta o nosso barco para sempre ao mar. Temo que depois da palavra tocada fiquemos puros demais. Que faríamos de nossa vida pura? Deixa o céu à esperança apenas, com os dedos trêmulos cerro os teus lábios, não a digas. Há tanto tempo eu de medo a escondo que esqueci que a desconheço, e dela fiz o meu segredo mortal.
 
Clarice Lispector - Para não esquecer


Fria, pálida e absorta em suas verdades absolutas ela não era mais ser, apenas sonho.