"Então me vens e me chega e me invades e me tomas e me pedes e me perdes e te derramas sobre mim com teus olhos sempre fugitivos e abres a boca para libertar novas histórias e outra vez me completo assim, sem urgências, e me concentro inteiro nas coisas que me contas, e assim calado, e assim submisso, te mastigo dentro de mim enquanto me apunhalas com lenta delicadeza deixando claro em cada promessa que jamais será cumprida, que nada devo esperar além dessa máscara colorida, que me queres assim porque assim que és..."
Passávamos a noite em claro rindo de qualquer bobagem desmentindo o que o mundo lá fora nos fazia crer. Eu cantava “oh, you don't realize how much I need you" enquanto ela permanecia intocável em seu silencio. Não me importava porque palavra nenhuma era necessária, pertencíamos uma a outra e descrever seria nos limitar. Vivíamos em nosso pequeno paraíso aquele canto escondido, distante de tudo onde costumávamos fazer planos e sonhar. Eu não tinha muita coisa, carregava só uma mochila velha e uma carteira de cigarros, calçava meu melhor tênis, o único, um all star rasgado, mas tudo que tinha era seu. Com traços dessa minha caligrafia torta escrevi a mais bela e louca história ao seu lado e por não ter medo eu mergulhava de cabeça no oceano desconhecido do teu ser.
Eramos tão jovens que chegamos a acreditar que o "pra sempre" existia, mas a vida logo tratou de nos ensinar a ser fortes destruindo os laços que nos uniam. Eu morri no dia em que me deu as costas e partiu e mesmo quebrada ainda morro de novo pela certeza que tudo está fadado ao fim.
Ainda guardo no relicário de mim as lembranças mais bonitas de tudo o que fomos. Lembro das nossas iniciais talhadas naquela árvore, da reciprocidade mutua e da promessa. O tempo passou depressa demais, hoje eu sou das ruas de qualquer lugar existindo apenas quando pensar em nós. Você passa, finge não me ver, sinto vontade de gritar, pedir para que me toque com esses teus dedos frios para que me olhe no olho e plante qualquer carinho em mim. Tenho vontade de lhe pedir para que não sinta medo, que segure a minha mão e escute as poucas palavras que direi, mas tomada pelo ódio, presa em um mundo onde não existe nós, você passa, finge que não me vê. Apanhado, sacudindo a poeira eu a amo, ninguém imaginava que eu fosse capaz de aprender, mas não só aprendi como hoje é tudo que sei. Todo mundo tem que ter fé em algum coisa para mim tudo que resta é o amor.

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