O ponteiro do velocímetro marca 100 km e a mão segura firme
o acelerador. Quando o vento bate no rosto, sinto como se pudesse voar. As asas se abrem independentes, belas, e
assim começam a bater, numa pulsão incontrolável que mal consigo respirar. À
medida que me distancio do solo ignorando o medo infantil de altura bato com
mais força as asas, parando somente quando o sol toca minha pele e
delicadamente arranca e destrói pedaços da epiderme e terminações nervosas.
Permaneço estagnada no vazio do abraço imaginado, consolando-me na ausência
agora física através da dor berrante da carne viva. Nessa hora o ser mitológico
Ícaro toma o pensamento, me sinto como ele, meu anseio de alcançar o céu é tão
forte que um só fragmento do imenso desconhecido faz-me sentir Deus. No entanto
a realidade desperta como uma bofetada, a mortalidade é um limite insuportável,
e assim começo a cair.
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