quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O sonho de Ícaro




O ponteiro do velocímetro marca 100 km e a mão segura firme o acelerador. Quando o vento bate no rosto, sinto como se pudesse voar.  As asas se abrem independentes, belas, e assim começam a bater, numa pulsão incontrolável que mal consigo respirar. À medida que me distancio do solo ignorando o medo infantil de altura bato com mais força as asas, parando somente quando o sol toca minha pele e delicadamente arranca e destrói pedaços da epiderme e terminações nervosas. Permaneço estagnada no vazio do abraço imaginado, consolando-me na ausência agora física através da dor berrante da carne viva. Nessa hora o ser mitológico Ícaro toma o pensamento, me sinto como ele, meu anseio de alcançar o céu é tão forte que um só fragmento do imenso desconhecido faz-me sentir Deus. No entanto a realidade desperta como uma bofetada, a mortalidade é um limite insuportável, e assim começo a cair.
 


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