quarta-feira, 9 de julho de 2014

Forasteiro

E nem sequer
Era primavera.
E disseste que margarida
Era amarelo e branco
E eu disse que branco era paz,
E disseste que amarelo era desespero.
E dissemos quase juntos que margarida era então desespero,
cercado de paz por todos os lados.

Caio Fernando Abreu



Na incompletude dos pedaços desconexos que me constituem, eu habito o planeta vermelho inanimado: marte. Sou fruto do limbo e da estéril atmosfera da qual mais tarde florescerão espinhos. Provenho da simultânea linhagem extinta antes mesmo de vingar,  adaptando-me a paisagem imposta e o doce fel que como pão me alimenta.
Desse planeta caótico, do emaranhado de pensamentos que se misturam e tudo mais que cabe nesse amor, estamos você e eu aqui, girando a 10mil km/h na imensidão do sistema solar desafiando os deuses e seu poder esmagador de alterar e definir destinos. 
Na promessa de preencher os vazios, me ocorre que durante anos o sonho tenha permanecido adormecido imerso na escuridão da minha caixa torácica. Enfim, dessa práxis do improvável, junto com a epifania da desordem, consigo finalmente batizar essa loucura com meu próprio nome e ao contemplar a margarida que floresce no solo árido quando estica os dedos e segura minha mão, descubro finalmente porque nasci. 







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