"(...) pois se de um lado a morte me abraça, do outro a vida me chama."
Lya Luft
Eu os olho com olhos, tão cheios de ironias e cansaços, na certeza que ser humano algum fora e será capaz de desvendar o que há por trás da opacidade dos olhos meus. Do momento que o ventre sagrado de minha mãe fora rasgado até o aqui, agora em que minhas mãos já tremulas tentam firmar a caneta, declaro que minha glória é não acompanhar ninguém.
Eu sinto o mundo como uma ciranda, uma enorme roda que boa parte anseia fazer parte. Nessas cantigas aprendi desde cedo vendo-os girar que se ama o que é fácil e conveniente e o outro a eles nada serve, aliás, é útil apenas para tapar buracos ou como curativos para as antigas feridas. Para os que dançam na roda as palavras não tem valor, são meros clichês devidamente decorados e espalhados aos quatro cantos.
De fora eu observo a dança, uma vez que, dessa ciranda eu fui expulsa quando nasci. Fui banida porque meu destino é ter amor por essas gentes que chegam e partem, gentes que aos poucos as pessoas vão se esquecendo, mas dessas vidas embebidas de afeto, não esqueço, tais repousam no meu coração de chumbo e como um menino cerram os olhos e apenas dormem.
Da minha jornada, os instantes foram dedicados à busca pelo que sobra depois dos abraços apertados e dos olhares que se cruzam e se perdem. As minhas veias ardem os versos antigos e as canções esquecidas. Talvez minha vida seja mesmo um vendaval que se levantou. Não sei pra onde vou, nem sei se existe um porto em que meu corpo adoecido possa atracar, no entanto em pleno gozo das minhas faculdades mentais declaro que até o leito da minha morte renunciarei as cirandas e clamarei por memórias doces e silêncios para que então enfim eu possa tocar a senhora de olhos doces que sempre me foi roubada, paz.

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