segunda-feira, 22 de abril de 2013

Vícios, abstinência e Jane


      O relógio digital marca 05h00min horas, me viro de um lado para outro na cama, que parece maior desde que se foi, tento ficar imóvel a espera do sono tão desejado que se recusa a vir. La fora a cidade é deserta, sem vida como eu. É uma noite escura sem nenhuma estrela no céu, longe o barulho dos trovoes professam a chegada de uma tempestade será uma noite longa, penso. Levanto-me de lançante e sigo em direção à cozinha.

- Preciso de álcool, algo forte. – minha voz ecoa por todo o cômodo.

       No armário encontro um litro de vodka ainda fechada, com a tampa cerrada entre os dentes a arranco com um golpe preciso, meus dias de bar serviram para alguma coisa. Em cima da pia o copo com a marca de batom vermelho carmim seu predileto, mesmo copo que na semana anterior Jane apreciava sua coca zero - sempre me fazia rir com suas ideias quase doentias de perder peso era tudo diet, light, gostava de irrita-la dizendo ser comida de doente sem gosto nem tempero. Um sorriso escapa incrível como mesmo longe ela ainda conseguia perturbar o canto dos meus lábios. 

       Vou em direção à sala e sento-me no chão em frente à janela, as primeiras gotas de chuva começam a cair, o céu dá seu espetáculo de som e luzes iluminando minha cara marcada. Hoje aqui jogado no chão desse apartamento vazio é que percebo o quanto sinto sua falta, aquela menina/ mulher doce, envolvente e determinada iluminava meus dias como ninguém jamais fizera. Perdi a pessoa que mais amei porque nunca soube dizer o quanto a amava meus silêncios sempre me impediam de fazer isso, no fundo sabia que ela queria mais que “baby curto muito você” Jane queria “eu te amo tu é a mulher da minha vida”, nunca consegui dar isso a ela, como falaria de amor se nunca soube o que é isso? Meus relacionamentos se resumiam em atração e “te ligo um dia desses” (nunca ligava) as pessoas não esperavam muito de mim assim como não esperava nada delas. Sempre vivi assim, ignorando, me privando de tudo que envolvia amor e finais felizes. 

       Só que com Jane era diferente eu gostava de tê-la por perto, em meus braços, gostava de velar seu sono tranquilo, parecia um anjo. Nunca permiti que ninguém dormisse ao meu lado, nem que invadisse meu universo paralelo, ela foi a primeira e única. De algum jeito Jane me mostrou que essas coisas tão simples, babaquices de gente melosa Love Love me deixavam leve e gostava disso, eu o cara complexo destruidor de corações do oitavo andar estava apaixonado.

-Como isso foi acontecer?

Eu a amava em silencio porque essa era a única forma que sabia, tinha medo, sim eu tinha medo de ferrar com tudo e perde-la. E dessa forma à perdi para sempre. 

      O cinzeiro está cheio, acendo mais um cigarro, quero fumar e beber até perder completamente os sentidos, minha resistência ao álcool essas horas torna-se algo irritante, estou na segunda garrafa e ainda consigo fazer o quatro e gritar. Uma dor lenta toma cada pedaço, cada célula do meu corpo cansado carregado de nicotina e álcool. A ausência é um punhal enterrado no meu peito. Sua presença não é nenhum capricho, mas uma necessidade, nunca quis nada nem ninguém como a quero, entretanto sei que jamais voltará. 

      Vou até o quarto, abro a gaveta do criado mudo que fica ao lado da cama, no fundo encontro o que procuro coloco o objeto no bolso apanho o travesseiro de Jane e rumo até a sala. Sento-me em frente à janela novamente, lá fora uma chuva calma cobre a cidade que dorme, pego o celular tentando encontrar algum sinal dela. Nada. Só mais um gole penso e esvazio o copo. Brody Dalle grita ao fundo “Baby, you make my heart beat faster Let alone”. Retiro do bolso a lamina enferrujada guardada durante anos e defiro um golpe em cada pulso. O sangue jorra enquanto repouso lentamente a cabeça sobre o travesseiro, me embriago no seu único vestígio, aquele cheiro doce viciante que parece me entorpecer. Abraço-o como se fosse seu corpo o aroma se dissipa quase que escapando por entre meus dedos e então caio em um sono mortal e profundo repetindo como um mantra, te amo minha pequena Jane, t-e a...



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