sábado, 7 de dezembro de 2013

"Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.

Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,

Que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim”.


Carlos Drummond de Andrade


Da boca cheia de palavras não ditas, porque nada faz mais sentido, restou apenas o gosto amargo no fim da garganta tão conhecido do abandono, e das dilacerações, fomes e sedes impera em mim somente a vontade irracional de dançar. Ouvi uma vez que quando se dança a psique é tomada pela roda da vida que no embalo da valsa lenta a liberta das correntes (pena que era apenas uma lenda).  Eu terminei onde comecei, equilibrando-me sobre a velha sacada sem grades (porque agora eu não tenho mais medo de cair), assistindo toda essa gente chegando e partindo, festejando a vida que eu não posso tocar. Terminei onde comecei, agora sem mais nenhum pedaço que pudesse desatar o desejo antigo de olhar para trás. Da metade amputada de mim resta apenas a fisgada, uma dor latejada no membro que perdi, todavia nessas voltas, aprendi que nada dura para sempre, nem mesmo a dor.

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